terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Copenhague 2009 – O Fiasco

Aço. Concreto. Vidro. Silício. Água. Petróleo. Madeira.
Dias desses eu estava imaginando a Terra como a figura de uma Mãe zelosa, amorosa. Nos primeiros instantes do bebê, ela o alimenta com o melhor de si, com sua energia que flui pela ligação umbilical.
Um pouco de tempo passa e de repente ela já segura nos braços um bebê que desperta nela um cuidado e carinhos ainda maiores. O bebê cresce, começa a engatinhar, sujar as fraldas, mas faz parte desta etapa de vidinha dele.
Alguns milênios se passaram, e este “bebê” se recusou a crescer. Não saiu de seu colo para desenvolver a Vida, não respeita a Mão que o gerou, alimentou e limpou. Vejo a imagem de um cara de trinta e poucos anos, que acha que sabe tudo do que se há para saber, que insiste em sugar as tetas dessa Mãe, e se alimentar dela, porém sem ter o menor constrangimento em defecar em outro lugar. Não! Caga em cima dela mesmo!
Bicho, penso por um instante na quantidade de veículos parados em pátios de montadoras esperando para irem pras ruas, na quantidade de carros em lojas de automóveis, tanto novos quanto usados, esperando para engarrafar o trânsito de qualquer cidade. Penso na energia que foi gasta projetando, testando, construindo, evoluindo estes carros até o modelo final que foi posto à venda.
Pneus, vidros, couro nos bancos, metal, tintas. Tudo retirado de dentro da Mãe.
Olho a cidade onde vivo. Cada prédio, cada casa, cada barracão foi feito com matéria prima extraída da Mãe. Olho para o asfalto que cobre a cidade e me deixa tão feliz quando está novinho e sem buracos pois não estraga o meu carro, mas quando chove, algumas pessoas enfrentam alagamento pois a água que seria absorvida pelo solo agora não encontra permeabilidade e vai correndo e se juntando com mais água e desembocam nos pontos críticos do percurso, arrastando carros, pontes e crianças que encontra pelo caminho.
Penso na casa que quero construir, no imenso terreno, pé direito bem alto e muita madeira, concreto e vidro no projeto, pra dar estilo. Penso em dinamites explodindo montanhas pra me fornecer pedra brita, buracos e mais buracos sendo cavados para me fornecer cimento, árvores arrancadas para fazer meus móveis e servir nas vigas da minha casa.
Penso em quanta comida estraga todos os dias nos mercados perto de casa e que são jogados fora por estarem impróprios para consumo humano, mas penso às vezes que quando estavam nas prateleiras eles já estavam “impróprios para consumo” por causa do preço alto. Muita gente que se alimentaria poderia ter acesso a este alimento, mas a grana ficou curta, não deu pra comprar, agora é lixo. E se o mercado resolver distribuir tudo um dia antes do prazo de validade vencer, ou mesmo no dia exato do vencimento, tenho certeza de que cabeças vão rolar. Deve haver outra forma de lidar com isso.
Penso em tantos itens de tecnologia que estão sendo oferecidos pra mim e que não vou fazer uso de todos os recursos daquilo, nem que eu viva três vidas! Mas eu quero pra mim! Eu preciso! Penso nas descargas que dou em casa a cada ida ao banheiro, mesmo pra fazer o numero um, e fico vendo aquela água clorada, tratada, filtrada sendo usada pra levar mijo embora. A mesma água que eu bebo, que uso no banho!
Penso em tantos outros condomínios e prédios que serão construídos para atender a uma já grande demais população que continua nascendo sem a mínima instrução pra vida. Mais uma geração de consumidores. Mais gente pra trabalhar e pagar a conta ecológica que está chegando. Penso que o Homem quando surgiu na Terra, teve seu tempo de adaptação, de entender o funcionamento e as boas trocas que ele poderia fazer com a Mãe. Nesse tempo a humanidade era bebê.
Depois veio o tempo em que o Homem já tem consciência de si e da Terra, e percebe que a poluição, ou seja, cagar em cima da Mãe não é lá muito bom.
Hoje, por incrível que pareça, o Homem se reúne pra dizer que vai continuar chupando a seca teta da Mãe que começou a sangrar, que vai continuar mexendo em seus órgãos vitais pra tirar o que lhe for do interesse de lá, e continuar cagando em cima destas feridas abertas e sem tempo de cicatrização que escavadeiras e plataformas de petróleo estão fazendo.
Vai continuar porque quer grana. Ou seja: Poder. Ou seja: Foder! Quem quer que seja!
O impulso suicida da humanidade representado em seus lideres deixa claro que me dou o direito da busca daquilo que eu defino como “Felicidade”, mesmo que isso me esteja preparando a morte certa.
Mas meu erro é pensar que essa Mãe vai ficar quietinha triste observando isso tudo. Meu erro é pensar que sou a primeira espécie a estar no colo dela e desrespeitá-la achando que vai ficar por isso mesmo.
Penso eu.