domingo, 5 de setembro de 2010

Se me conhecerem, conhecerão o Pai...

Um homem tinha dois filhos. Não eram gêmeos: havia o mais velho e o mais moço. Não sabemos a diferença de idade entre eles. Não sabemos muito sobre a personalidade de cada um.
Num dia qualquer, sem muita cerimônia, o filho mais novo aborda o pai e pede: Pai, me dê minha parte na sua herança. O pai olha pro filho, meio sem entender, pensa consigo mesmo: Pô, nem morri ainda, estou bem de saúde, e o garoto já querendo herança... Será que ele tem medo de como serão as coisas quando for o irmão mais velho dele que estiver tomando conta de tudo? O pai não diz nada, reparte a herança entre os irmãos.
Nem três dias depois e o filho mais novo já estava saindo da fazenda, não queria perder tempo.
Talvez pra ficar longe do “Superego Familiar” se ficasse nas redondezas da fazendo, o sujeito vai pra uma terra distante. Viveu como quis, comeu o quê, quem e como quis.
Duas coisas acontecem em seqüência: o fim do dinheiro e uma crise financeira na região onde vivia. O garoto começa a passar fome, frio, medo. Consegue emprego numa fazenda de engorda de porcos. Por um instante passa pela cabeça dele a repulsa que o povo dele tem por porcos, mas muito pragmático, aceita o trabalho.
O problema é que o salário é simbólico, não cobre suas necessidades: se compra comida, falta para a moradia. Se paga a moradia falta para as roupas. Se compra a roupa, fica com fome. A cada dia crescia algo alienígena dentro dele, uma cobiça velada pela lavagem que os porcos comiam... Começa a relativizar a coisa, pensar que não pode ser tão ruim assim e tal, talvez se separar a lavagem mais fresca, talvez botar para ferver pra virar sopa... Mas no dia que teve coragem de fazer o teste, o patrão viu que ele estava tirando da ração dos porcos e o repreendeu duramente.
Neste momento, ele cai em si: Todos os trabalhadores de meu pai têm abundância de comida, lugar para morar e podem se vestir adequadamente. Voltarei lá e pedirei perdão para meu pai e pedirei emprego. Não tenho a mínima coragem de pedir qualquer coisa que não seja ser empregado dele.
Quando ele estava chegando, o pai o avista ao longe. Era pra ser só mais um fim de tarde normal e ele sentado na varanda da casa, olhando para o horizonte como quem espera alguma coisa. Já fazia um bom tempo que seu filho havia partido, e a única noticia que tivera é que a região onde o filho estava passava por grandes dificuldades. Então o pai ajeita os óculos no rosto queimado de sol, aperta os olhos pra tentar melhorar o foco da visão: Parece o jeito que meu filho mexe os braços quando anda... Parece que ainda mantém a mania de usar calças caindo e fica puxando pra cima pra não caírem... Não é possível!? Será ele?
Deixando a varanda para trás e sentindo um novo vigor desconhecido nas pernas, começa a correr em direção àquele vulto magro e maltrapilho que vem pela estrada. É ele, eu sei que é ele!
O garoto vem meio distraído repassando o discurso que fará ao pai para pedir emprego e de repente ele está ali na sua frente, esbaforido, suado, chorando, o abraçando forte, sem dar a ele a mínima chance de voltar desistir.
Quando consegue um espaço, o filho começa o discurso: Pai, ofendi você, ofendi a Deus, já não sou digno de ser chamado seu filho... Shhhh shhhh shhhh. Meu filho, não precisa dizer nada! Aos empregados que vieram correndo ver o porquê o patrão saiu correndo pela estrada, ele pede: Preparem um bom banho pra ele! Preparem as roupas! Tragam os sapatos! Tragam o anel da família e coloquem no dedo dele! Acendam a churrasqueira! Chamem os músicos, chamem os vizinhos, chamem todos! A festa hoje é em minha casa! Achei meu filho que eu achei estar morto! E a festa começa.
O filho mais velho precisou ficar um pouco mais no trabalho e quando chegou em casa viu o alvoroça, as cozinheiras sorridentes correndo pra lá e pra cá com panelas de comida, música alta, o povo dançando. Puxa pelo braço um dos garçons e pergunta o que está havendo: Seu irmão voltou, seu pai mandou fazermos festa por ele estar bem e de volta. Aí era demais! O sujeito “mata” meu pai, diminui minha riqueza, e se estou certo, aquele bezerro no rolete era o que eu iria assar no próximo feriado... Eu não entro nesta festa por nada neste mundo!
O pai fica sabendo que o filho mais velho não quer entrar e vai falar com ele: Filho, o que acontece? Venha, vamos comemorar que seu irmão voltou! Pai, esse cara desrespeitou você, gastou todo o dinheiro com sexo, drogas, rock and roll, e sabe-se lá o que mais e agora ele volta e você faz festa pra ele? Estou com ódio demais pra entrar, não posso! Filho, você esta sempre comigo, todas as minhas coisas são tuas! Eu não posso deixar de comemorar o fato de seu irmão ter voltado, está vivo, com saúde.

Licenças poéticas à parte, quando Jesus falou sobre o Pai, contou esta parábola. É neste Pai que eu creio.
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Eu não tenho lembranças antigas muito vivas de meu pai. Acho que a lembrança mais antiga que possuo dele é de quando eu era garotinho e estava tomando banho e o chuveiro parecia ser inalcançável, e meu pai me levantou nos braços e eu pude tocar o chuveiro. Foi o máximo! Meu pai era aquele gigante da propaganda da Mitsubishi! (http://www.youtube.com/watch?v=5lBz5RN3DPs)
Há um gap bem grande de tempo então e a penúltima lembrança mais antiga que tenho viva na memória sobre meu pai é quando ele trabalhava no setor de manutenção de um hospital da cidade e eu era guarda-mirim, ficava fiscalizando carros estacionados em áreas pagas do centro da cidade. Eu estudava de manhã, saía rapidamente da escola, pegava um ônibus e descia perto do trabalho de meu pai. Ali eu comia metade do marmitex dele e sempre que a carne do dia era frango, ele deixava a coxa pra mim. Muitíssimo tempo depois eu fui fazer a sinapse que para ele, adulto, trabalhar o dia todo com meio marmitex no estômago devia ser muito difícil, mas na época eu não pensava nisso, só achava ruim o fato de ser pouco demais só meio marmitex pra mim todo dia, e ainda por cima entregar o cheque do salário (simbólico também...) limpinho pra minha mãe, enquanto meus amigos descontavam os cheques deles numa lanchonete e bebiam coca-cola e comiam misto quente. Essas duas lembranças bem antigas que tenho de meu pai me ajudam muito sempre que eu e ele temos dificuldades de relacionamento (não vou expor meu velho aqui né...). O fato é que sempre que penso no Pai, acaba passando um pouquinho do filtro do meu pai no processo, então o Pai às vezes pra mim, não é tão amoroso e cheio de Graça assim. Já pra minha mulher, quando ela ora ao Pai, não tem filtro negativo, ela teve a sorte e o azar de ter um paizão amoroso, mas que morreu cedo, quando ela ainda era garotinha e ele ainda era o gigante da Mitsubishi.
Se fôssemos perguntar para Isaac a imagem que ele fazia de Deus como Pai, pode ser que ele ainda tivesse calafrios e pesadelos envolvendo um facão, uma voz do céu e um cordeiro.
Neste ponto fica claro por quê o convite feito por Jesus é para sermos discípulos dele, pois pra ele, o Pai é o pai da parábola contada no início deste post. Não é para eu ser discípulo de Abraão, com quem Isaac talvez nunca mais tenha tido coragem de ir junto caçar e pescar. Não é para ser discípulo de meu pai com quem já tive muitos desentendimentos, apesar de amá-lo e me saber amado por ele, mas nunca teria coragem de voltar pra casa dele se eu tivesse feito o que o filho mais novo da parábola fez. Nem é pra eu ser discípulo do falecido pai de minha mulher, que sempre ouço histórias sobre ele e são sempre positivas. Nem discípulo de qualquer outro, pois por mais que sejam amorosos, pacientes e companheiros, são apenas humanos.
Sou convidado por Jesus a olhar para o Pai a partir do olhar que ele tem!
Quem formulou e contou a parábola foi ele! Simples assim!
Agora quando eu tento sinceramente imaginar a razão de determinadas situações difíceis pelas quais eu passo, entender o por quê está demorando tanto aparecer o socorro, a resposta, a solução, eu não consigo imaginar o Pai de quem Jesus falou de braços cruzados com cara de cínico dizendo: Hmmmm, pede mais uma vez, vai. Ou então: Sabe o que é? Você não foi à vigília, ou não fez o jejum, ou não fez isso ou aquilo, ou não deixou de fazer isso ou aquilo...
Bicho, não acredito mais, sinceramente que exista algo que eu possa fazer para aumentar o amor do Pai por mim. Tampouco há o que eu faça para diminuí-lo. O amor Dele é total, sem reservas, sem espaço para manobras. Quando eu aumento meu tempo de oração, quando eu jejuo, ou qualquer outra coisa que eu faça, eu faço apenas por mim, para mim. Quem precisa de quebrantamento sou eu, e uma vez que eu encontre aquele momento devocional sincero, produz em mim o que o Pai já queria que assim fosse, significando dizer que a iniciativa SEMPRE foi do Pai em minha direção. Antes da fundação do mundo já havia o sacrifício de amor de Jesus. Antes de haver Adão e Eva já havia a Cruz. Ela só entrou na história humana e limitada depois, mas já era, visto que Deus É.
Não consigo explicar nem para mim mesmo o momento em que vivo, não tenho as respostas, só mais perguntas. O fato pivotal na minha alma é que o Pai é Bom. Posso não entender, não ter respostas, ter como alimento diário lágrimas, mas o Pai é Bom.
O filho mais novo ao voltar para casa vinha ensaiando o discurso. O pai não queria discurso algum. O fato de ter o filho ali nos braços era um sonho realizado. Não foi por barganha alguma que o filho recuperou o anel da família. Não foi por prometer nunca mais fazer aquilo de novo que o filho foi recebido com festa. Foi recebido com festa por ter vindo. Por ter entendido QUEM É O PAI. Por mais que não soubesse tudo a respeito do pai, sabia por observação que os empregados eram todos bem tratados, melhor do que ele fora quando trabalhou cuidando de porcos. Paulo disse que o PAI estava no FILHO reconciliando CONSIGO MESMO o mundo. Iniciativa do PAI. Vem do PAI para filho nenhum se gloriar. Não existe pedra de toque. Não existe oração forte nem fraca. Existe oração. Não existe texto mágico, não existe seqüência ungida de procedimentos. Existe o filho que cai em si, que se percebe filho de quem É. E ao perceber-se filho de quem É, confia no caráter do Pai. E o PAI É Bom. As coisas saindo como eu espero ou não, o PAI É BOM. Ainda estou muito longe de praticar esta compreensão de modo inconsciente. É um exercício diário. Tento o tempo todo dispensar o discurso e apenas SER. Mas esqueço o tempo todo e me pego tagarelando meu discurso. Confesso que ter um discurso é muito cômodo. Posso participar de qualquer embate me apoiando nele. Mesmo que poucos comprem meu discurso, sempre tem quem compra. Não quer dizer necessariamente que haja algo luciferiano no meu discurso. O fato é que não fui chamado para TER, mas para SER. Não fui chamado para ter o Templo de Salomão em São Paulo (falando em construções, graças a Deus o estádio do timão agora sai do papel!), não sou chamado para ter arquinhas da aliança em casa, sou chamado para SER templo. Todo e qualquer sacramento precisa SER em mim primeiramente. Não é o pastor que me casa, se eu e minha mulher não estivermos casados dentro de nós, apenas acontece um teatro do lado de fora, com valores cenográficos. Você pode descrever em detalhes para mim a cerimônia de casamento de Isaac e Rebeca? E de Adão e Eva? E de José e Maria? Então com isso quero dizer que penso que o SER sempre suplantará o TER. Pois até para TER meu nome escrito com a letra do PAI, e ainda por cima escrito PERDOADO ao final do compêndio de meus erros, preciso SER nova criatura.
Não tenho pretensão nenhuma de esgotar o assunto aqui, não disponho de lastro intelectual para isso, mas eu digo o que digo, pois ontem eu estava no passo anterior a este, tentando encontrar razões e mecanismos para ter a resposta imediata que eu queria, para saber se as coisas sairiam ou não do modo que eu estava pedindo. Depois de chorar, desesperar, ameaçar dar porrada, consegui chegar ao verso 11 do Salmo 42. E fiquei pensando em Filipe que disse: Mostra-nos o Pai e isto nos basta... E Jesus responde: Pô, estou com vocês todos os dias e não me conhecem? Não sabem quem SOU? Talvez foi por isso que Jesus achou importante perguntar para os caras: As pessoas dizem que eu SOU quem? E vocês? Quem eu SOU pra vocês?
E fui dormir com lágrimas nos olhos e a estranha sensação de ter sido visitado.

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